Olhávamos, não mais do que poucos segundos, as faces tímidas a girar pelo salão; depois chegava feito obsessão o ato irracional e nos olhávamos novamente. Fazia um sentido quase que de encaixe único aquele querer, aquele desejar ser o pé que carrega um par; nem mesmo os outros com seus movimentos espalhafatosos atrapalhavam nosso feeling, nosso ritmo era rico, tínhamos vocação para aquilo. Íris com íris, pé com pé, o encontro e o encaixe. A dança era em si perigosa - se atermos ao fato de que poderia ser pra vida toda. Bailemos então:
Hoje eu vou dançar num campo minado
e me assegurar de que tudo esteja armado
pra me ver passar um sufoco danado
Quem sabe vou pisar numa mina de fogo
e consumir minha alma num lançe de dado
Talvez eu caia em um poço de lodo
ou me salve com um simples passo irado
Inventando um "step" anti-agouro
Me tornando "o rei do gingado"
quinta-feira, 4 de julho de 2013
domingo, 30 de junho de 2013
transatântico
ah, como seria bom
ter você em meus braços
te sentir até o último suspiro
vai que num sonho você se apresente
e na realidade eu te tenha de presente
ah, como seria raro
ter-te em contratempos
em pestes negras
em pragas faraônicas
nos mais sangrentos desatinos
e noutra face contemplar tua beleza
ah, como seria intenso
saber das tuas dobras
desafiar as tuas coxas
dominar as roxas camadas de tuas mucosas
abrir seus buracos com a "calma-ferocidade"
dos casais apaixonados
assimilar as noites com tuas luas
temperamentos que só a mim concederia
ah, como seria um escravo
um reles empregado de tua empresa
limparia todo o seu passado
as suas doenças, dores de amores mal quistos
colaboraria com tua felicidade
cortaria os pulsos dos incomodados
extrapolaria uma vida por ti
por sorte um diagnóstico
me traria a luz de minha patologia
e sem intimidade com a medicina, riria
pela falta de bom censo, pela crítica dos doutores
pois nada no mundo equivale a sua lira
nem mesmo uma rima rica
nenhum texto seria capaz de descrever-te
nenhum delírio onírico
desculpe meu eu-lírico pobre
nenhum nobre seria capaz de conter-te
por isso me atento a minha insignificância,
não tenho palavras, nem mesmo elegância
ah, como seria raro
nosso encontro noutro cosmos
outras vidas te completam, eu sei
seria mesmo um deus
uma força maligna
que controlaria este meu estado?
poderia arrancar minha pele
extrair meus dentes
tirar minha casa, meu sustento
mas nunca deixar-me sem teu perfume
nessa minha perspectiva de ser
sua atenção eterna e aventura
acelerada e inconsequente
ah, como seria bom
se fosse tua minha vida
e se tudo fosse esquecido
nossos desentendimentos
que nunca foram entendidos
assim por ti me arrisco
imerso no teu transatlântico
me atiro sem aviso
assim por ti sobrevivo
ter você em meus braços
te sentir até o último suspiro
vai que num sonho você se apresente
e na realidade eu te tenha de presente
ah, como seria raro
ter-te em contratempos
em pestes negras
em pragas faraônicas
nos mais sangrentos desatinos
e noutra face contemplar tua beleza
ah, como seria intenso
saber das tuas dobras
desafiar as tuas coxas
dominar as roxas camadas de tuas mucosas
abrir seus buracos com a "calma-ferocidade"
dos casais apaixonados
assimilar as noites com tuas luas
temperamentos que só a mim concederia
ah, como seria um escravo
um reles empregado de tua empresa
limparia todo o seu passado
as suas doenças, dores de amores mal quistos
colaboraria com tua felicidade
cortaria os pulsos dos incomodados
extrapolaria uma vida por ti
por sorte um diagnóstico
me traria a luz de minha patologia
e sem intimidade com a medicina, riria
pela falta de bom censo, pela crítica dos doutores
pois nada no mundo equivale a sua lira
nem mesmo uma rima rica
nenhum texto seria capaz de descrever-te
nenhum delírio onírico
desculpe meu eu-lírico pobre
nenhum nobre seria capaz de conter-te
por isso me atento a minha insignificância,
não tenho palavras, nem mesmo elegância
ah, como seria raro
nosso encontro noutro cosmos
outras vidas te completam, eu sei
seria mesmo um deus
uma força maligna
que controlaria este meu estado?
poderia arrancar minha pele
extrair meus dentes
tirar minha casa, meu sustento
mas nunca deixar-me sem teu perfume
nessa minha perspectiva de ser
sua atenção eterna e aventura
acelerada e inconsequente
ah, como seria bom
se fosse tua minha vida
e se tudo fosse esquecido
nossos desentendimentos
que nunca foram entendidos
assim por ti me arrisco
imerso no teu transatlântico
me atiro sem aviso
assim por ti sobrevivo
domingo, 23 de junho de 2013
Rainha
Quero
ver você permanecer na estrada até o último momento
até a morte parecer barata
até as minuciosas frustrações suicidas se tornem concretizadas
até que o último segundo cesse
até a espera desses últimos tempos
Volte, antes que todas as baratas do universo explodam
e toda camada "baratal" se funda e forme uma crosta
volte, antes que milhares de vidas baratais estejam na venda
estão duvidando de sua existência
de sua forma de brincar com os cometas
de começar do zero uma ação inesperada
de botar ovos e povoar colônias
assim sofro - como a nostálgica invenção do telefone sem fio
começa com “digo isto”, mas é sempre aquilo
sempre um grito confuso, fosco
Fale baixinho, não apenas a mim
toda a sua verdade
tenha um troço
e cresça com fermento ou nessa anarquia de si
encha nossos corações mesquinhos
ou entregue o jogo – a tua aldeia
invente um outro de ti pra acompanhar e bendizer os súditos
pois é nisso que tudo pára:
a busca pela sucessão de seu trono
e se por acaso não aguentares esta vida e cometeres haraquiri
perderemos o rumo e os sentidos das antenas
para quê estamos nesse universo explorador
se antes mesmo de aparecer você se esconde
e
brinca de voar? domingo, 9 de junho de 2013
Estranhos
O silêncio é
suportável até para os incertos. E como seria se outra música tocasse meu
coração daquela mesma maneira que fora há tempos distantes? Será que suportaria
carregar outra conspiração dentro de meus sonhos? Porque somente os que amaram
se tornaram capazes de enfrentar terceiros tempos, só os que se importaram com
a não mesmice das noites e dançaram os compassos incertos sentirão a delicadeza
dos dias – certamente ouviria que era impossível ser aquilo que desejas, ou
tornar-se-ia impraticável, seria apenas o começo. Diante de tantos anseios, a
sobra do passado que corrói a saudade já não é mais a mesma – se tornou
concreta, imutável e mantida em um sigilo, que de tanto pensar ficamos à sombra
da morte, indivisíveis e alheios à queda iminente. Por certo quando os elos forem desfeitos e
apropriados a um único ser, este sim sairia ileso e por cima de tudo, não que
eu mesmo queira sair por cima, ou que me importe, ou que você também o queira,
mas é claro que posso procurar um título maior, desde quando os moralistas em
questão estão divisados entre o bem e o mal; e entre essas arestas posso assim ser o rei da miséria que intitula
nosso tempo. Mas como somos dependentes sempre nos esbarramos e aquela fagulha
se expande e se torna impraticável. Belo seria possuir e deixar de lado, ás
moscas, para que num tempo distante se valha até mesmo o adubo que adquire as
hortaliças menos apreciadas. Porque a prática retrátil de qualquer selvageria
apimentaria todo um contexto. Nela estariam corretos e enviesados todos os
problemas românticos. E foi-se a nitidez de um vidro, seguimos embaçados. Pois
havia entre nós uma clareza de sentidos que se ajeitava nas simples coisas. E
aceito sim, a tua ira, a tua condenação ignóbil de que nunca seremos
compatíveis – a tua distância apenas esclareceu os fatos, colocou-os em ordem,
de forma que agora posso entendê-los. Se a tua chaga fosse fatal provavelmente
me colocaria em algum eixo, me traria aquela importância que colocaria todo o
nosso jogo à prova. Não condeno a tua impaciência, tampouco me faço de total
culpado. Apenas sigo nesse desastre e me apego ao pegajoso cárcere que criei.
Não digo que estou seguro, muito menos fui o que saboreou mais e destemperou o
clima. É que havia a capacidade de refrear aquela nossa ideia de que tudo era
possível, sem medidas ou contratempos – por mais enganador que pareça e por
mais perecível que se encontre nosso estado, vivemos em calamidade; aprecio
essa vista e a pratico da janela.
Passado a prática sem medidas e contratempos, ficamos em suma
semelhantes ao que os outros são: apenas outros.
"Ensaio um beijo com amor de pecado mortal
e deixo que saia um sabor de recado final
eu vou derramar a doçura saliva do beiço
no seio, cintura, em sua boca
na face, nas curvas da carne, nos laços do peito
jurei poemas mil vadiei o seu sono
tapei o canto vazio com teu desenho risonho
será que serei o primeiro a te merecer
o bem que me faz admito é melhor que perder"
domingo, 22 de abril de 2012
Acampamento ao interior
Tinha escolhido o momento certo. O agora sairia tão cedo e cumpriria sua meta, esbabaçando-se no desejo de chegar ao cume. Montanhas, cachoeiras e águas termais se organizavam entre sua lista de desejos. Tantas são as belezas naturais daquele lugar inóspito, sua cabeça tomando decisões, e os goles de coragem. E vou-me agora, disse, enquanto se despedia de um banho de chuveiro. A mala pesada daquele rapaz, tão pesada quanto mala de moça, e para quê tanto? Se lhe servia somente alguns trapos nessa admirável aventura. Com outra visão de mundo talvez se lembrasse de que ainda estava vivo. Enfim pegou o malote e foi sem ajuda de mapa algum. Uma bússola sim, certamente apontava-lhe o norte avisando que chegou a hora de descansar. O peso daquele ecossistema sob suas costas e isso porque seu sentimento de desbravador era muito mais forte do que os adornados arqueiros das tribos subjacentes; seu pensamento era maior do que as páginas de um livro. Cumplicidade selvagem, com folhas secas e nenhuma fagulha, um momento que soou praticamente intacto, uma fervura feita da gotícula do orvalho, que por hora impedia a finalização combustiva dos gravetos no diesel daquela linha esportiva. Aventureiro que era, feito provador que degusta um momento, pensou duas vezes antes de escrever a primeira palavra. O “agora”, que dependia de seus prazeres descontados. Os dizeres que não foram computados durante a longa jornada que o seguia.
Enquanto sua saúde ainda permanecia em alta, os dedos ainda cortavam o caminho e a navalha ainda era afiada. "Não vou querer acender a luz que emana de minha aura e demarcar minha trilha nesse instante". Estava só. Só, para poder mostrar às inquietudes divinas estas misérias e incertezas que o cercavam; e para mim ou qualquer outro não se deixava passar batido quitar as contas em qualquer lugar, mas sim em “minha parceira paisagem”. E dessa afirmação saía um monstro negro que de tão banal legitimava da maneira mais simples seus passos. Tinha armadilhas pelo trajeto. Onças pintadas e macacos-prego por toda a parte. Enquanto admirava aquela fauna acendia um cigarro. E como um raio a notícia de seu aparecimento se tornou matéria prima sintética.
Precisa-se de doutores da mente e, em especial, do coração. Em meio à floresta amam-se os pássaros e apreciam-se as variedades do ambiente em fase clímax. Um manguezal enfeitado com animais se sobressai sob o efeito da neve que causou tal descoberta como sua, e a foto estampada na próxima edição geográfica de um jornal local- assim como uma dose de gelo no cérebro que o fizera atirar o cigarro contra a pintura verde semelhante aos quadros feitos da terra; e a neve tão rara fazia sua aparição, tão inverossímil que não calha e nem caía em um país tropical. O fogo em profusão, lambendo o que aparecia pela frente e o balde de água feito lança chamas limpando o que era a ser descoberto.
Por conta de tais atos ele abandonava qualquer esfriamento e concentrava-se na chama de seus chacras. Em pleno tropicalismo das falácias curativas, como naquele programa de desintoxicação, animava-se às melhoras dos caminhos internos.
Sem incomodar ou dar-se conta do perímetro em que se encontrava, o rapaz aqui citado adentrava a floresta do pensamento com seu arsenal de sobrevivência: um canivete na boca, uma arma carregada no bolso e um cantil que sempre se apresentava ora com água, ora com teores alcoólicos e proibidos pela instituição que se apoderava de suas vestes militares; se dele houve a sobrevida e as graças de seus passos, não se sabe. Somente se apoderará a bandeira de sua nação. Se houvesse um hino e o hasteamento da bandeira vermelha – todo o possível ‘vinho’ no final da tarde agora não dependia da entrega e da presença de uma mulher, mas sim de uma simples fagulha. E era sim bem simples se as damas estivessem por lá. Elas seriam do tipo qualquer; aquelas que falavam sozinhas e faziam falta nas conversas despretensiosas. Mesmo de ambos os lados, em qualquer direção havia a fumaça. Quando encontrados, chama e carne estariam a sorrir até mesmo lembrando quando da criação da estirpe do mundo. Pari-las e as deixar fugir pelas cercas voláteis, numa deplorável inquietude que nem mesmo restariam comentários ou lembranças era o mais fácil a ser executado. Mas preferiu guardar para a próxima visita.
Ele prostrou- se ao seu destino, e então de dentro das folhas procurava extrair as essências nobres e o verde mapa que, passado algum tempo, complementava sua pele feito camuflagem. O rapaz que ora roçava em samambaias - enquanto desbravava a mata - deixava sua coceira se manifestar o mais naturalmente possível. Alegrava-se com sua alergia, um verdadeiro sobrevivente. Punha-se a experimentar os produtos de sua mochila, o repelente, os insetos e as armadilhas para os animais das tocas. – ou deveria esquecê-los e pedir ajuda - aquela urticária que necessitava de antialérgico – Era possível e simples viver feito uma cobaia. Antes fosse esta a sua classificação. O silêncio perpassava da bolsa à barraca recém-montada nas colinas. E até a noite se ajeitou para os testes, parecia negra. Despertou sem nenhuma picada, um verdadeiro milagre.
Um acampamento para nunca ser esquecido.
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