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domingo, 24 de abril de 2011

Veio

Veio

Veio pra ficar aqui

Veio para senso, pra datar

Veio para dentro,pra tirar a sede

Desde que a rede é pra deitar

Veio assim pra ficar comigo

Me diz como chegaria se não fosse por e-mail?

Não sei se existiria se não fosse o correio

Veio para ler a mente

Veio assim doente, pra sujar

Veio pra essa gente se curar

Veio pra acalmar o prepotente

Que não sabe nada de amar

Veio pra fazer amor

Pra curar a dor de quem tem medo

Veio desmontável, um brinquedo

Veio por imagem imaginária

Veio por arquivo temporário

Com data marcada em calendário

Veio pra fazer todo universo

Se sentir mais longe e disperso

Veio pra mudar toda idéia

Veio pra sanar toda matéria

Como areia negra de luar

Veio pra ficar

sexta-feira, 4 de março de 2011

A vida não presta

É... Quando imaginava que tudo um dia se encaixaria perfeitamente e que aquela banda que tínhamos rasurado no papel se tornaria a nova sensação dos sucessos comercias; não temos show, nem o palco, nem mais provocações ou platéias; sequer avistamos os tomates pelo caminho - se existiram -; agora tudo é um silvo permanente. Fosse o que fosse –dane-se o mundo, o mundo não presta - valeram aplausos. Grato sou por ter dividido um espaço em seu tempo de vislumbre ocioso.

E não sei dizer o tamanho de tudo o que foi compartilhado; só sei que é tesouro e está guardado, certeza. O resto – como sempre- é resto.

As luzes se apagaram ou seria apenas o intervalo?- Odeio terminar textos com questionamentos, mas a única certeza de que temos é a morte. Não é verdade?

(Felipe Zanotti - A vida não presta)

Homenagem para meu grande amigo Felipe Zanotti que viveu dignamente, descanse em paz!


E para os amigos vivos, bom carnaval.

terça-feira, 1 de março de 2011



Vejo
Tocado e vestido
Adentro
Inteiro e declaro:
Armada ao armário.

E vento é vulto ao relento

Visto
Trocando a tez
por cores nuas...
(Recorte e revoltas)
... em parangolés.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pela metade

Ligo o vento. Estou pensando em sair e desistir, mas o vento está mostrando força. Uma força que esfria a minha pele e de certa forma acalma meu corpo. Minha mente já cheia e ninguém pra conversar. Sou um menino bobo, feio e mal amado. Será? Será que isso me esperou enquanto o vento me varre desesperadamente? Sei que talvez possa parecer um não, ou o impossível seja uma prova de persistência. Apenas rebato o que penso pondo a culpa no meu ânimo. O ser é perigoso, assim como estar parado também. Não temos o tempo em nossas mãos – com dezesseis anos sim, posso dizer – e a ampulheta é persistente lâmina em corrosão. Esperam por nós, os decompositores, mas nós não esperamos. Microscopicamente somos iguais a qualquer decompositor. Decompomo-nos em sílabas e formamos um momento. Crispado ou liso, formando um montante de miúdas cicatrizes do dia. Transpasso o que pareceria ser belo e real, e me apego. Apego-me a repetição e isso me devora. Dias e dias. Anos e anos. E ainda estamos. Estamos num todo sem rumo, praticando a arte de dizer o indizível; dimensionando os prazeres nas muralhas distantes da pureza. Que Deus ouça e realize meus desejos - Quer quando jovem e belo, quer quando na falência ou no desafeto das inimizades - Travarei uma batalha aceitando a derrota iminente. Fragilidade não é exposta sem o golpe final; e sem a ferida cutucada não foi um dia, não valeu. Semeio o que decorre de espaços em branco e fixo o que planto na esperança de vida. Vozes que nunca calam esperam serem atendidas, ressoa e não percebes? Enquanto lê ou se aporta nos braços de um amor, o que pensas? Fica em silêncio. Traduza o que realmente és - Os és são os maiores desafios da existência-. Assim subirás pelas rugosidades a procura de um seu tão intangível que desatolaria o rumo da vivência. Sim e não, meu e seu; um todo entre espaços dispostos irregulares, que certamente arranjados e com um sentido perfeito se tornarão concretos. Assim somos; nunca paramos por mais que aconteça uma catástrofe – continuamos os flagelados honrados -, mesmo com os corpos feridos e carentes – a vida não descansa em meio a uma tormenta. Dar abrigo aos quereres dos últimos abraços pra fornecer a esperança de despertar diferente é dar e não receber. E diferente somos; ainda bem - é certo -. Fito o teu semblante: um dos mais belos que já vi; se vi o mais belo talvez parecesse contigo. E da poça de meu Iris perpetuo a acuidade que apresentas – nem máquina seria capaz de guardar tão nitidamente o que vejo. Duas ou três coisas que admiro tanto: a leve tempestade que cobre minha cabeça a fita-lo, como que se estivesse noutra margem fosse seguro e tenro; toda a forma simétrica tingida de moreno-madeira que pra descrever me faltaria termos. Caindo por entre os vales mais obscuros no reino fantasmagórico é que me livro de suas ventosas hipnóticas, assim podendo usufruir de lembranças, somente, – as tuas – sem o medo do presente, que rejuntaria nossa história despedaçada. Creio que o vento será acolhedor nos próximos instantes, mas quando minha pele esfriar já será tarde, provavelmente me cansarei de tentar explicar o inexplicável. Por enquanto, me abasteço dessa linha esperando novamente uma resposta... E outra e outra e mais outra.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma amizade inesperada

Era a primeira vez que tomava aquele caminho. Como era a primeira vez, minha mente estava destinada a perceber pequenos detalhes - que só quem cruza um caminho pela primeira vez perceberia.

Sentia uma formiga subindo pela ponta do dedão do pé esquerdo e me perguntava por que raios um inseto que vive em comunidade andaria solitário por vales desconhecidos. Formiga depressiva caminhando sozinha por entre os pêlos de minha perna, eu sentia a sua solidão. Eu sentia e achava engraçado. A estranheza de ser ponte não era massiva, no entanto ela se alojava dentro de mim sempre quando as patas do inseto se movimentavam. Talvez eu seja o último caminho a ser percorrido por aquele ser, talvez eu seja o último. Aquilo era mesmo um pensamento estranho, tão estranho como anunciar a morte ou despedir-se.
Imaginei pequenos dedos tocando meus dedos à espera de um beliscão que me acordasse daquele transe; por isso mesmo aceitei a formiga, enquanto caminhava pela rua a procura de algo.
Olhei o céu e compreendi que as luzes bruxuleavam e o tempo passava — É noite... hora das andorinhas dormirem - , disse um de meus self’s — E dos morcegos fazerem a festa - completou outro. Tirei os chinelos para que o casco do pé sentisse o chão cheio de britas e cacos de vidro. A cidade apagada e eu ali desperto, moendo e sovando o que alguns chamariam de tédio. Imaginei um boneco ou um homem ensaiando um monólogo ou escrevendo um auto — Talvez você seja a única a me fazer companhia hoje – disse para a formiga, que agora se encontrava quase alcançando o meu peito. Esperei a amizade cansar. A ferroada exposta serviu de aviso pra terminar tudo.
Era uma vez uma amiga...