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sexta-feira, 4 de março de 2011

A vida não presta

É... Quando imaginava que tudo um dia se encaixaria perfeitamente e que aquela banda que tínhamos rasurado no papel se tornaria a nova sensação dos sucessos comercias; não temos show, nem o palco, nem mais provocações ou platéias; sequer avistamos os tomates pelo caminho - se existiram -; agora tudo é um silvo permanente. Fosse o que fosse –dane-se o mundo, o mundo não presta - valeram aplausos. Grato sou por ter dividido um espaço em seu tempo de vislumbre ocioso.

E não sei dizer o tamanho de tudo o que foi compartilhado; só sei que é tesouro e está guardado, certeza. O resto – como sempre- é resto.

As luzes se apagaram ou seria apenas o intervalo?- Odeio terminar textos com questionamentos, mas a única certeza de que temos é a morte. Não é verdade?

(Felipe Zanotti - A vida não presta)

Homenagem para meu grande amigo Felipe Zanotti que viveu dignamente, descanse em paz!


E para os amigos vivos, bom carnaval.

terça-feira, 1 de março de 2011



Vejo
Tocado e vestido
Adentro
Inteiro e declaro:
Armada ao armário.

E vento é vulto ao relento

Visto
Trocando a tez
por cores nuas...
(Recorte e revoltas)
... em parangolés.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pela metade

Ligo o vento. Estou pensando em sair e desistir, mas o vento está mostrando força. Uma força que esfria a minha pele e de certa forma acalma meu corpo. Minha mente já cheia e ninguém pra conversar. Sou um menino bobo, feio e mal amado. Será? Será que isso me esperou enquanto o vento me varre desesperadamente? Sei que talvez possa parecer um não, ou o impossível seja uma prova de persistência. Apenas rebato o que penso pondo a culpa no meu ânimo. O ser é perigoso, assim como estar parado também. Não temos o tempo em nossas mãos – com dezesseis anos sim, posso dizer – e a ampulheta é persistente lâmina em corrosão. Esperam por nós, os decompositores, mas nós não esperamos. Microscopicamente somos iguais a qualquer decompositor. Decompomo-nos em sílabas e formamos um momento. Crispado ou liso, formando um montante de miúdas cicatrizes do dia. Transpasso o que pareceria ser belo e real, e me apego. Apego-me a repetição e isso me devora. Dias e dias. Anos e anos. E ainda estamos. Estamos num todo sem rumo, praticando a arte de dizer o indizível; dimensionando os prazeres nas muralhas distantes da pureza. Que Deus ouça e realize meus desejos - Quer quando jovem e belo, quer quando na falência ou no desafeto das inimizades - Travarei uma batalha aceitando a derrota iminente. Fragilidade não é exposta sem o golpe final; e sem a ferida cutucada não foi um dia, não valeu. Semeio o que decorre de espaços em branco e fixo o que planto na esperança de vida. Vozes que nunca calam esperam serem atendidas, ressoa e não percebes? Enquanto lê ou se aporta nos braços de um amor, o que pensas? Fica em silêncio. Traduza o que realmente és - Os és são os maiores desafios da existência-. Assim subirás pelas rugosidades a procura de um seu tão intangível que desatolaria o rumo da vivência. Sim e não, meu e seu; um todo entre espaços dispostos irregulares, que certamente arranjados e com um sentido perfeito se tornarão concretos. Assim somos; nunca paramos por mais que aconteça uma catástrofe – continuamos os flagelados honrados -, mesmo com os corpos feridos e carentes – a vida não descansa em meio a uma tormenta. Dar abrigo aos quereres dos últimos abraços pra fornecer a esperança de despertar diferente é dar e não receber. E diferente somos; ainda bem - é certo -. Fito o teu semblante: um dos mais belos que já vi; se vi o mais belo talvez parecesse contigo. E da poça de meu Iris perpetuo a acuidade que apresentas – nem máquina seria capaz de guardar tão nitidamente o que vejo. Duas ou três coisas que admiro tanto: a leve tempestade que cobre minha cabeça a fita-lo, como que se estivesse noutra margem fosse seguro e tenro; toda a forma simétrica tingida de moreno-madeira que pra descrever me faltaria termos. Caindo por entre os vales mais obscuros no reino fantasmagórico é que me livro de suas ventosas hipnóticas, assim podendo usufruir de lembranças, somente, – as tuas – sem o medo do presente, que rejuntaria nossa história despedaçada. Creio que o vento será acolhedor nos próximos instantes, mas quando minha pele esfriar já será tarde, provavelmente me cansarei de tentar explicar o inexplicável. Por enquanto, me abasteço dessa linha esperando novamente uma resposta... E outra e outra e mais outra.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma amizade inesperada

Era a primeira vez que tomava aquele caminho. Como era a primeira vez, minha mente estava destinada a perceber pequenos detalhes - que só quem cruza um caminho pela primeira vez perceberia.

Sentia uma formiga subindo pela ponta do dedão do pé esquerdo e me perguntava por que raios um inseto que vive em comunidade andaria solitário por vales desconhecidos. Formiga depressiva caminhando sozinha por entre os pêlos de minha perna, eu sentia a sua solidão. Eu sentia e achava engraçado. A estranheza de ser ponte não era massiva, no entanto ela se alojava dentro de mim sempre quando as patas do inseto se movimentavam. Talvez eu seja o último caminho a ser percorrido por aquele ser, talvez eu seja o último. Aquilo era mesmo um pensamento estranho, tão estranho como anunciar a morte ou despedir-se.
Imaginei pequenos dedos tocando meus dedos à espera de um beliscão que me acordasse daquele transe; por isso mesmo aceitei a formiga, enquanto caminhava pela rua a procura de algo.
Olhei o céu e compreendi que as luzes bruxuleavam e o tempo passava — É noite... hora das andorinhas dormirem - , disse um de meus self’s — E dos morcegos fazerem a festa - completou outro. Tirei os chinelos para que o casco do pé sentisse o chão cheio de britas e cacos de vidro. A cidade apagada e eu ali desperto, moendo e sovando o que alguns chamariam de tédio. Imaginei um boneco ou um homem ensaiando um monólogo ou escrevendo um auto — Talvez você seja a única a me fazer companhia hoje – disse para a formiga, que agora se encontrava quase alcançando o meu peito. Esperei a amizade cansar. A ferroada exposta serviu de aviso pra terminar tudo.
Era uma vez uma amiga...