Marcadores

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Roteiro roto

Careca, digita-digita, pensa, olha para a tela, estala dedos, digita-digita, o barulho da máquina, os olhos para a tela, os óculos, a pele branca, o banco vermelho almofadado a girar pequenos graus, ecos na sala ao lado, distração e revolta, levanta e pensa, deixa a máquina, fecha a janela, senta, pesquisa, digita-digita, cansa, desliga o monitor, sai da sala, cumprimenta amigos de turma, segue a classe, senta, ouve, questiona, discorda, coloca sua idéia em pauta, aceita opiniões, a sua é posta em prova, ele exemplifica, apresenta, visualizam, aceitam, aplausos, silêncio, bancos vazios, retorna a sala, ao banco, ao computador, digita-digita, lê, apaga, pensa, levanta, vai até a cantina, conta moedas, pega o lanche, paga, senta, beberica, encontra um amigo, e mais outro, sentam, conversam, risos, exaltação de assuntos, futebol, notas, provas, colegas de trabalho, projetos para o futuro, baixa renda, mulheres nuas, cumprimentos, olhares, despedida, averigua as horas, um livro aberto, averigua as horas, um livro fechado, o ponto, o ônibus, cansaço, o ponto, a casa, a chave, a senhora, a bênção, a comida, os filhos, o cachorro, a esposa, a família.
Grisalha, roupas sujas, máquina de lavar, cores separadas, dia do branco, água quente, 'lavagem algodão', automação, sol, tempero, talos, pia, cozinha, carne a descongelar, preparo, fogão aceso, fervura, batata doce, tomate, carne descongelada, cebola, caldo, nata, netos, boa tarde, piadas, intrigas, correções a dedo, castigo, resignação, quartos separados, silêncio, pratos, anúncio, todos à mesa, oração, todos comem, agradecimentos, todos saem, silêncio, pratos sujos, pia, restos de comida, lixo, pratos limpos, apito, automação completa, roupas limpas, varal, sol, cansaço, o quarto, a cama, a benção, o descanso, a família.
Cabelo grande e sedoso, código de barras, produtos em oferta, cálculo desconto, recebe dinheiro, autentica notas, emite fiscais, troco, próximo cliente, emite fiscais, troco, próximo cliente, cartão recusado, guichê fechado, mesa especial, atendimento diferenciado, autorização da compra, guichê aberto, notas fiscais, filas cheias, averigua as horas, filas vazias, café, averigua as horas, fim do expediente, cansaço, sai do estabelecimento, carona, beijo de despedida, casa, mãe, os filhos, o marido, a mesa, a família.



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Filosófica cadeira


Uma vez era de se esperar que ela me reprovasse. Diante de toda sala, eu, a chamar pelos colegas de turma e não ser atendido, o porquê do zero sentenciado por aquela boca impiedosa até hoje não se sabe, nem tampouco de suas consequencias. A prova estava mais fácil do que um livro aberto; e esculpindo as respostas estava eu, enquanto a inquiridora fuzilava nossas cabeças em seu vai- e-vem amedrontador, mas menos ameaçador, porque eu era um ator decorado naquela filosofia que ela tanto empregara no semestre. Sentia que como na questão um a prova era armadilha, mas não me afugento no caos da magnitude humana de quebrar nossa percepção.
Sim, era teatro total, transporte de sangue para o cérebro e antes que me deixasse ‘anóxio’ pude cumprir a tarefa sem ser pego por sua ilusão - a ilusão de quando minha inimiga estava sentada no escritório secreto , preparando o seu veneno e o pontuando – esta, por exemplo, valia um ponto.
Incrível é que os venenos mais potentes valem mais, ou incrível não é, pois isso é coisa da cabeça, às vezes é um buraco ou às vezes é só um escuro com um interruptor do lado e pronto: luz!, caminho livre para a próxima etapa.

Os testes são assim: melindrosos ao erro, sempre; lei natural ameaçadora. E não, e não creio que deveriam sê-los, mas quando estamos em uma fornalha com níveis, ficar perto do fogo pode ser acolhedor e perigoso, ficar longe é morte certa. Pondere sua cabeça para a umidade ou nada disso, esqueça , estou mesmo descontente com a forma de ensino; e sequer ela não nota, mas a minha careta está no lápis e nos garranchos que o sistema vai ter que decifrar. Depois eu mereço a guilhotina; eu e todos os alunos merecemos o inferno, e todo o sistema de regras gramaticais. A química é a química e pronto - para mim que sou otário - “ou eu?”- e fantoche das ressonâncias, do acerto, da próxima questão.

Sabe, na verdade não era isso o que podia ser feito. Acho que podia ser feito mais do que ela esperava, e assim o fiz, não porque deveria ter feito, mas por pura vontade de fazer o que podia ser feito. Esse fazer era poder e assim ela estaria pronta para a próxima resposta, mas naquela hora não, não era o momento certo de iluminação ou consciência, era embotamento e alerta; uma mulher presa numa torre de vidro que pensava ser feita do mais valioso cristal e que esquecera os sapatos de mais estima na festa, em sua sala de aula, enquanto o mais apropriado era fazer da vida uma grande limitação territorial acerca dos principais problemas dos filósofos modernos.

Zero. Foi mesmo o que ela disse. Zero e mais nada. Mas como pode ser um zero, como pode não valer um traço, uma idéia, mesmo que esta esteja errada? Se me explicar, te dou um ponto, ou um beijo pra quem for de beijo - mas pra ela não valia nada, uma pena, não pra ela! Um tijolo nas minhas costas e a minha decência de abaixar o ritmo; é que não estava lá e esse zero não foi pra mim, e sim pra todos os que defendiam aquela causa.

O que apeteceu lhe convinha e foi posto em prática. Quem sentenciou sofre, sofre secretamente ou gostaria de entender o que é sofrer. Quem sentenciou sabe o peso do valor sentenciado. Por isso mesmo merece ser vigia até o último instante.
Um cometa cai na terra.
O mundo explode.
Os dinossauros.
Os diamantes.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Existencial xis

Quem criou o criador?

Quem matou a criatura?

Como beber dessa água se essa água não é pura?

Qual escolha é a certa?

Qual a sua descoberta?

Qual a lógica que atira sua ira mais secreta?

Qual etapa foi quebrada?

O que falta no processo?

Quais as últimas palavras que acompanham esse verso?

Quem já sabe da resposta?

Qual a única lembrança?

Quem tem medo de perder uma aposta por vingança?

Como gasto o meu salário?

Qual o mal de todo o mundo?

Qual o tempo necessário para o último segundo?

Como conquistar amigos?

Como aproveitar o dia?

Qual a pena pro bandido que caiu numa armadilha?

Quem merece uma revista?

Como foi a sua infância?

O que sabe o cientista sobre a nova substancia?

Quem já leu o dicionário?

Como concluir promessas?

Onde encontro o atalho pra poder chegar depressa?

Quem equiparou o nível?

Quem insiste na vitória?

Qual o plano infalível para completar a história?

Como somar um instante?

Quem causou esse problema?

Qual o trecho iniciante que antecede um poema?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ceia de Domigo

Ceia de domigo

De carne vermelha

E pele dourada

Assim fomos feitos um pro outro

Na mesa você estava

Deslumbrante

Suculenta

Eu pude notar

A azeitona preta

Estava vencida

Mas valeu

Cada mordida

Eu fartei, lambi o beiço

Enchi a barriga

E agora tudo passa

De solidão e sobremesa

A braguilha aberta, a fala à mesa, a comida

Em decomposição

Decomposição

Nada mais a fazer

O prato limpo, a sala, o tempo , o tédio, a TV

E o jornal

A sessão da tarde se abrindo

E eu no quimo indigesto, entregue a uma ceia de domingo

_____________________________________________

Ps: Se alguém lembrar do coelhinho da Páscoa, tudo bem :)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Setembro

Lá vinha um, e novembro, mais uma, e novembro sempre por perto. Hoje já agora, antes tarde. Menos mal, minuciosamente firme, levanta e vai. De copo em copo e água e barro e filtro de chão. Cinzas no cigarro, bolhas de fumaça, uma em forma de coração e imagina – recebia o décimo terceiro antes. Ria e ria e roía unhas. Em paz, na espera, justamente por hora e o chá verde e morno, ia. Ouvia passos, pés estranhos, partindo o assoalho vizinho; como se andasse um mal educado pela casa. Crianças em suas traquinagens e a rua impedindo que o barulho que o atentava se manifestasse - meninos atinando meninas ao primeiro beijo, e o beijo. Não sabia onde estava ao certo, seria em seu quarto ou em sua cabeça, o que seria não sabia ao certo, por isso mesmo mantinha-se quieto, extasiado em um sonho. Não fez nenhum teste, apenas deixou que sua metade se manifestasse, gradativamente. Sem melodrama, apanhou os chinelos e sua arma mais secreta, aproximou-se da porta.

O som rompia no ambiente, mesclando o processo desarmônico da vizinhança - maldito cortiço em que vivemos – seus ouvidos rejeitavam a idéia de gostar, agia na mesma potência de receber visita com vassoura na porta. Queria gritar, mas desaprovava tal atitude, era como se inserisse na situação e não era isso o que queria. Silêncio era o que queria; silêncio e o que fosse creditado em sua conta. Era angular e pendia para o lado das queixas. Ficava por isso sua embarbação, o começo de uma revolta interna, explodia por dentro e sentia vergonha em sua falta de expressão ou notoriedade, talvez fosse descartável e sincero, ou duvidasse muito de sua importância.

Voltou pra casa em sua cefaléia diurna de parentes distantes, suas condições precárias e os alugueis. Ligou a TV e o bate-papo do sofá; aquela alegria que certamente era intangível, os sucos de melancia o atormentavam, e os de morango. Como se todo o dia fosse o mesmo, o relógio marcava seis horas. Todo esse ensaio pra que fosse outra preparação, era o que sempre reclamava, depois de ferver a panela com água e açúcar e servir o café. Brindava e sorria àquele sentimento de abraço gostoso de inverno, de ter tudo por um instante, o rei ocupava seu trono, em meio a tanta miséria e barulhos nocivos; e as doenças da manhã não lhe afligiam nesse pequeno instante, livre da chuva que agora se manifestava pelo vidro, e que limpava toda aquela gente simples que recolhia roupas limpas e encharcadas dos varais. Se olhasse tal situação era quando somente esquecia a janela aberta e o frio queria companhia, fora isso, pouco lhe importava, ou o era perceptível, pelo que diziam era bom moço, mesmo sendo aterrador qualquer deslizamento ou assassinato que urge afora, e ele praticamente seguro e inocente, em meio a sua visão televisiva de sofás e sucos desprezíveis.

Enquanto o pão apodrecia, os mosquitos colocavam ovos nas calhas, uma mulher em sua mente a fita-lo, o despia, era provocante e o chamava para a cama. Dizia ele que seria comportado e não faria barulho, preparava o bote, era a hora mais esperada do dia, quando ela se ajeitava e perturbava seu juízo, ralhando suas imperfeições, que no fundo, no fundo, ela adorava. Dizia de sua solidão e falta de calor humano, jogava verdades na lata de lixo enquanto se fartava de provocações. Era de tamanha teimosia que podia modificar seus modos, por pura insistência.

Como duas metades se pertenciam, e ele a imaginar, vivendo nessa lâmina cega, sem sentido e de fim incerto, e ele e ela, só ele era, o único que amava o bastante para dar bom dia aos pivetes e aos barulhos preciosos dos homens, quando e somente quando se encontrava catatônico de amor, em pleno mês de setembro.