quinta-feira, 7 de julho de 2011

Polução noturna

O mandante de toda aquela execução estava dormindo. Em seu sonho podia ser quem quiser. Podia ser uma ave ou outro bicho. Em qualquer situação. Ordem ou circunstância. Ele começava a parlamentar idéias, repartindo-as em filetes de histórias e transpassando-as pelo decodificado sistema R.E.M.. Agora estava ele de pé, em um jardim florido de petúnias sob um sol persistente e uma brisa revigorante. A pele úmida e os cabelos ao vento; luzes se aproximavam, não era nada parecido com o que já tinha visto, mas ele reconheceu, sua mulher estava dançando de forma exótica. Uma dança jamais executada,uma mulher na cama, o problema de toda a criação em uma cena de minueto explícito. Ela dançava invertida, de maneira que seguia um compasso ao contrário, e o som de um coral de pássaros que vinha de uma fita cassete antiga acompanhava na função reversa aquela dança sedutora. Enquanto a cena se normalizava em meio aos gritos e os gemidos que a respeitável madame produzia enquanto dançava, ele imaginava ter o maior cacete do universo e nesse momento ela se sentia como uma rosa, desfolhada por beija-flores. As rosas se despedaçavam onde a vara do herói passava, e outras petúnias preenchiam o espaço de seus estandartes, como num passe de mágica ali estava outra.
Cores... Cores... Muitas cores... Ele avista um lago vermelho e azul.
O lago de garças vermelhas, todas elas com peixes azuis a boca. Ele estava em um barco na tentativa de pescar as garças vermelhas. Mas sua isca eram os peixes azuis do lago, que ele tentava pescar da boca das garças. E ele ficava nesse impedimento. Até convencer uma garça a abandonar o lago e a comer um pedaço de pão. Pra que? Os peixes se soltaram da boca das garças e todos eles se revoltaram e empurraram o barco do rapaz para a margem do lago. O lago ficou azul e o céu vermelho. Os peixes tentavam pular para a boca das garças, mas já era tarde, todas elas estavam voando. E nessa tentativa os peixes se afogaram e o lago secou. Ele assistia aos peixes se debatendo até que imaginou os peixes transformando-se em pães, e o céu antes vermelho completava-se com o azul da tarde, em perfeita harmonia, peixes e garças. Até que ele se acorda pra tomar água. Não sabia o porquê daquela mania, mas ele gostava mesmo de ingerir água pela madrugada. Resolveu não pensar em nenhum tipo de transtorno médico, apenas pegou a jarra de água da geladeira e bebeu tranquilamente, todo o líquido, até que se esgotasse da garrafa. Fechava a geladeira, desligava a luz e voltava para a cama, saciado de um lago. Deve ter sido do lago mesmo, constatou, depois de atirar uma escama de peixe da boca. De repente seu lábio secou e ele encolheu. Começou a cair pelo espaço que não dava mais no chão.
Ele estava caindo em um abismo e começou a gritar. O eco chamava por ele. Ecos para todos os lados, ecos grandes e sonoros retornando aos nossos ouvidos quando antes ecoados. Pelo eco foram atendidos seus desejos. Ele caiu no abismo. Sem destino. Aéreo. Às vezes isso acontecia quando encontrava uma folha de papel. Punha- se a folha na palma das mãos e saía correndo, de forma que por ação do vento a folha começava a rodopiar e a levantar voo, e ele viajava como um garoto, avistando todo o céu e podendo mordiscar as nuvens. Retornava ao chão como uma pluma, sem nenhum ferimento e sempre acordava feliz.
Noutras vezes sonhava que estava nu, correndo pelas ruas e sentando em bares lotados, vez ou outra tocando músicas nesses lugares, ou ouvindo músicas totalmente desconhecidas. Sonhava com querubins inventando cirandas de ceroulas; e punha-se a esquecer quando todos percebiam sua nudez e começavam a caçoar de seu sexo, causando-lhe vergonha e uma irritante sudorese ao passo de que quando acordava irritado.
Um olho pisca, enquanto o outro aponta a pestana e libera o vermelho da vista. Ele interpreta explosões nucleares, e interage com deuses nórdicos. Não há menor sentido nas palavras que pronuncia, sequer recorda que aprendera alemão ou tinha tido um orgasmo. Todo e qualquer remonte é seu e não há indícios de outras construções, já que tudo está na cabeça dele, tudo foi arquitetado enquanto ele dormia.
6:00 AM, o horário, o relógio apita.
O sonho tentava puxar mais uma história, ele tenta dormir mais cinco minutos, porém o impulso do alarme fora tão grande que impediu que ele retornasse ao sono.
Veste a roupa, escova os dentes, toma o café e sai de casa atrasado pro trabalho, com a cueca toda melada.

Aguardem,

5 comentários:

FOXX disse...

belo texto, mas um tanto longo pra net, não acha?

Paulo Braccini - Bratz disse...

Mais q perfeito ... já tive fases em minha vida em sonhava sonhava sonhava abstrações loucas, sempre seguidas do poluções ...

Incrivelmente real isto ...

Michele P. disse...

Áthila

Minhas indicações de livros só vão aprimorar o seu lado escritor/grotesco. haha
Curti o caos e as sensações que o texto provoca. Sem falar do léxico,da escolha perfeita de palavras, que ilumina a leitura.
Show de bola, garoto!

Dan disse...

ehehe. sair com a cueca melada é sacanagem. rs

Gusta Fernandes disse...

Perfeito retrato poético de uma polução noturna, ou melhor, tesão mesmo.

a surrealidade e o desejo juntos, ficou muito show!
Curti muito esse texto, em particular alguns trechos!

Muito bom!!
Abraços.